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Guerra contra a dependência química

A importância do enfrentamento à dependência de drogas é tão óbvia que eu nem precisaria reiterar a seriedade do tema. Mas acontece que, justamente porque o assunto já é tão conhecido, as pessoas se acostumam com ele. Perdem a sensibilidade. Mas não custa lembrar: neste momento em que você está lendo este artigo, tem gente que está fumando pedras de crack e que passou o dia todo fazendo isso.

         Não é exagero. Todos nós sabemos que não. Nós vemos os viciados nas ruas. Nós lemos os jornais que trazem os números dessa doença. Em 2013, um estudo apontou que existiam 370 mil usuários de crack nas capitais do Brasil. E esses são números só do crack. Ainda existem a outra forma da cocaína, o pó, e muitas outras drogas: álcool, anfetaminas, LSD, ecstasy, maconha, opioides, inalantes…

Já a Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, de 2017, mostra que 3,563 milhões de brasileiros consumiram drogas ilícitas em período recente. Dos entrevistados, 208 mil disseram ter usado crack nos 30 dias anteriores ao levantamento.

         E, como eu disse, diante dessa realidade, muita gente, talvez por não saber como ajudar, simplesmente dá de ombros. Mas outros não. Felizmente, existem pessoas que dedicam a vida a tirar dependentes das ruas, tratá-los, curá-los, e reinseri-los na sociedade. São, em sua maioria, pastores e padres, que contam com o apoio e o trabalho voluntário dos fiéis. Estou me referindo às comunidades terapêuticas. No Brasil, a maior parte dos usuários de drogas só encontra tratamento nesse tipo de organização.

         Existe a rede pública, formada principalmente pelos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD). Só que ela é pequena. Por enquanto ainda são só 309 CAPS AD e 69 CAPS AD 24h. É pouco para o Brasil inteiro. A rede pública também conta com Unidades de Acolhimento, mas o número é ainda menor: 61 unidades!

         Também existem clínicas particulares, mas nelas a internação chega a custar 20 mil reais — por mês! Quem tem tanto dinheiro assim em geral vive bem longe dos problemas sociais.

         Fica claro que, para a família pobre, ou para o indivíduo em situação de rua, já desgarrado da própria família, o tratamento para a dependência é encontrado nas comunidades terapêuticas (CTs). São organizações sem fins lucrativos, espalhadas por todo o Brasil. A maioria, como mencionei, é composta por iniciativa voluntária de líderes religiosos e seus fiéis, e isso é uma grande vantagem: as igrejas têm muita capilaridade. O cidadão comum pode nunca ter ouvido falar de “CAPS AD”, mas ele provavelmente já teve contato com alguma igreja, ou com algum parente ou amigo religioso. Assim, fica bem mais fácil ele encontrar ajuda entre seus próprios conhecidos.

        As CTs são obra de não apenas uma, mas de várias denominações cristãs. Por exemplo, a Fazenda da Esperança, de inspiração católica, é uma das maiores organizações: tem 52 unidades espalhadas pelo Brasil, e até centros em outros países. A evangélica Associação Vitória em Cristo, de Silas Malafaia, mantém, entre vários outros projetos sociais, a Casa de Recuperação O Semeador. Batistas mantêm, entre outras, a CT Élcia Soares, no Estado do Rio.

       Esse trabalho é muito importante. Enquanto na rede pública só há seis dezenas de Unidades de Acolhimento, as CTs são milhares. E mesmo que o dependente encontre vaga nas Unidades de Acolhimento, nelas a permanência máxima é de seis meses; já nas CTs, o tempo médio de tratamento e acolhimento é de um ano. Um ano fora das ruas, um ano longe das drogas. Faz toda a diferença. Especialmente no caso do crack: a dependência que ele causa é grave demais para ser curada só ambulatorialmente. Os usuários e suas famílias, quando buscam tratamento, preferem mesmo a internação.

        Durante esse um ano, o acolhido não só fica longe da droga, como também se diverte, estuda, trabalha, aprende um ofício e, com isso, se sente mais capaz, mais integrado, mais amado. A ideia é realmente fazer com que ele se sinta numa família, até porque muitos dependentes só chegam às casas de recuperação quando seus laços familiares originais já estão bastante desgastados.

        Além dessas atividades voltadas à reabilitação, também são desenvolvidas outras de cunho espiritual. É que não basta reinserir o dependente na sociedade se ele não desenvolver também sua força de vontade para não voltar a usar a droga. Participar de uma missa, culto ou reunião não é violência contra ninguém. É só um jeito de incutir no acolhido valores e virtudes fundamentais, de levá-lo a se conhecer melhor, de tornar sua vontade mais firme.

          Por tudo isso, o trabalho das comunidades terapêuticas, que existem desde os anos 80, só em julho de 2011 a Anvisa publicou, pela primeira vez, uma norma para as CTs que reconhecia as suas especificidades. Só no ano passado o governo realizou a Primeira Pesquisa de Avaliação das Comunidades Terapêuticas.

          É necessário fortalecer a parceria entre governo e CTs. Manter organizações que ajudam tanta gente custa caro não só pelas despesas de acolhimento, mas também por causa do treinamento de pessoal. E não podemos deixar que iniciativas como essas se percam. De todas as pessoas, o Estado deveria ser o mais interessado em ajudar organizações que fazem tão bem à sociedade.

            Tanta demora em somar forças com as comunidades terapêuticas só contribui para que o uso de drogas no País continue crescendo. Precisamos apoiar as CTs. Todos os que reconhecemos a devastação que as drogas causam, todos os que vemos e não ignoramos as pessoas nas ruas entregues ao vício — temos que unir forças. Para mim, a ideia de que existem pessoas que, movidas apenas pela fé e pelo altruísmo, estão dispostas a ajudar completos desconhecidos — isso é uma das coisas mais nobres que pode haver. As CTs precisam de ajuda e a merecem.

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